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A fonte


Forma e representação falam por si em um bom trabalho de design gráfico. Essa é minha tentativa.
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Flor de Sangue


O Inimigo

A mocidade foi-me um temporal bem triste,
Onde raro brilhou a luz d'um claro dia;
Tanta chuva caiu, que quase não existe
Uma flor no jardim da minha fantasia.

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado,
Que paciente labor não preciso — ai de mim! —
Se quiser renovar o terreno encharcado,
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim!

E quem sabe se as flor's ideais que ora cobiço
Iriam encontrar no chão alagadiço
O preciso alimento ao seu desabrochar?

Corre o tempo veloz, num galope desfeito,
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito,
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
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Luz Solar



Tirar fotos ao meio-dia é uma coisa complicada quando se trata da cidade do sol, devido a incidência da luz e seu ângulo de inclinação que é quase zero. Esses fatores geográficos fazem com que quase todas as fotos saião subexposta ou superexposta, quase sempre resultados extremos, nunca o intermediário. Mas com um tratamento minucioso, e a conversão da foto para o P&B pode-se conseguir resultados bem agradáveis.
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Na Casa Defronte



Fascina-me o que as lesões do tempo nas suas portas têm a suspirar. Tantas Histórias nas suas portas se eternizaram, e quantas hão de passar. Momentos de outros esquecidos que, assim como eu, dançaram com os momentos uma dança de compasso lento. Tantas estações viu migrar, sofreste com as intempéries do tempo: vento, chuva, sol... Tanta flor viu murchar; o sol nascer em um lindo alvorecer de paz, banhado no mais cristalino orvalho. Quantas vezes viu o florescer das primeiras flores da primavera.

Hoje os que passam por ti não escutam seus lamentos de velha moribunda.

Na Casa Defronte

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...
Um nada que dói...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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Ordem e prevenção



O Estado resguarda a ordem com a prevenção, um controle abusivo maquiado de proteção. Segue nos protegendo de um mal maior, um mal secreto. Que mal seria esse?

O mau tão temido pela ordem é a liberdade. A liberdade em todo seu esplendor ameaça a soberania do Estado, abalando as estruturas de um sistema, que se ergueu no decorrer de tanto tempo sobre os corpos moribundos de homens livres.

Sinto-me na obrigação de lhes informar, que o espírito libertário ainda flama nos restos mortais dos moribundos que aqui habita, e não adianta soar alarmes, ascender seus holofotes, ligarem suas mangueiras, pois quando levantarmos, suas estruturas bem acomodadas sob nossos corpos caíram sobre a terra.

Anarquista (?!)


Jovem agitador,

Contestador.

Que luta contra a injustiça,

Contra o poder.


Poder de poucos,

De certos indivíduos.

Mafiosos que se julgam Deus.


Fazem e desfazem,

Apenas para seu prazer.

Prazer obscuro,

Prazer oculto,

Onde a magia dominante,

É o dinheiro sujo.


Jovens se unem,

Contra a injustiça

Capitalista.

E os donos do mundo

Vem com uma armadilha

Já construída.

E com pureza forçada,

Alegam ser amigos.

Com uma frase formada:

-Este jovem é anarquista

Se este jovem não quer ser enganado,

Roubado,

Estuprado...

Dizem que tem afinidades políticas:

-Comunista,

Subversivo,


Rebelde,

Radical,

Excomungado,

Anarquista


Se lutar pela justiça,

Contra o abuso do poder comprado,

Este poder infame,

Retalhado de mentiras.

Se lutar pelos nossos direitos

É ser anarquista,

Então Mamãe,

Seu filho é um anarquista (?!)

Livro Sentimentos - maio/87 - Sidney Crivelari Ogalla

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Abandonados



Um corpo largado no chão luta para sobreviver em um meio inóspito e frio.
Um corpo esconde-se em baixo da publicidade capital, em uma capital qualquer. Eu, você, todos nós. Cada um de nós é parte daquele corpo. Carrasco e executado, vítima e culpado.
Somos conseqüência dos nossos próprios atos, condizentes com o que é conveniente. Conveniente para aqueles que passam em seus casulos climatizados, habitam suas masmorras cada vez mais altas para não sentir o odor dos que apodrecem lá em baixo. Assiste no camarote a um show bizarro em três cores.
Mesmo que em três cores, que se veja então a verdade.
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O sono dos justos



Nossos passos medidos pelo tempo cada vez mais escasso.
Vencidos pelo cotidiano que ocupa espaço com suas lacunas.
Nós não nos cansamos do trivial, o trivial que nos deixa cansado.
Com seu dom de fazer tudo parecer banal, além de suas verdadeiras banalidades.
Nada intenso. Só muito rápido.
Não há tempo para sentir;
Não há tempo para viver.
Nem quando morrer haverá tempo para perceber, que a medida de nossos passos era passageira.
Não somos os passageiros, nem o trem, nem se quer as rodas...
Somos os trilhos.
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A Flor



A dona dessa flor é uma pessoa muito especial. Especial ao ponto de dedicar-lhe uma poesia de um dos meus escritores preferidos:
Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXI" Heterónimo de Fernando Pessoa
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O velho e o tempo



Um dia acordamos e percebemos que já não somos mais os mesmos, não somos mais como éramos antes. Passamos mas tempo para nos levantarmos da cama. Nossos dias são medidos pelo compromisso com os remédios, estendendo-se, prolongando nossas vidas. Há quem chame de recompensa ou experiência, eu chamo de cansaço. Espero o tempo sentado, ele passa por mim com o descaso dos vitoriosos.
A Velhice Pede Desculpas
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.
Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.
Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.
Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.
Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1958)'
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